O passado

palavra "laboratório", do latim laborare (trabalhar) e orium> (local onde se realiza a acção indicada pelo prefixo). pode também ser lida como uma conjunção das palavras labor (trabalho), orare (orar) e orium, pelo menos se olharmos para as suas versões alquímicas mais antigas, de Geber no séc. VIII a Newton ou Boyle no séc. XVII.

A alquimia, com os seus laboratórios e fornos, tentava acelerar neste espaço a tendência da Natureza para a perfeição. Robert Boyle, um alquimista, sugeriu que as experiências deviam ser feitas aos Domingos, sendo uma espécie de adoração divina. As implicações morais da transmutação do chumbo para o ouro implicava que este conhecimento devia estar apenas disponível para aqueles que o merecem, e que o trabalho prático deve seguir-se à oração, misturando espiritualidade e experimentação. No trabalho Amphitheatrum Sapientiae Aeternae' por Heinrich Khunrath (1605), o alquimista é representado em oração num oratório próximo da área de experimentação.

Os laboratórios foram desde o início associados a trabalho manual, algo que contrastava com o estatuto mais elevado de trabalho mental dominante nos currículos universitários. Um laboratório não estava ao mesmo nível de uma biblioteca.

No entanto, algumas universidades estavam já a incluir laboratórios de Química na sua oferta de espaços, tais como a Universidade de Altdorf, próxima de Nuremberga.  A Royal Society of London não tinha nenhum laboratório, contrariamente à Académie des sciences de Paris, que inaugurou o seu primeiro em 1668 com várias fornalhas, gabinetes com equipamento e bancadas. Lavoisier, nomeado em 1775 como comissário da State Gunpowder and Salpetre Administration, ordenou a construção de um importante laboratório rico em equipamento e onde uma equipa dos seus associados trabalhava, seguida em 1790 por outro na École Polytechnique de Paris e pela Royal Institution de Londres. No séc. XIX, estes espaços tornaram-se chave na economia, fornecendo produtos e processos para a indústria crescente (a Química teve as suas origens não apenas na Alquimia mas também na metalurgia, farmácia ou na manufactura de pigmentos e explosivos, entre outros), a agricultura e a medicina. No séc. XVIII, os laboratórios tornaram-se padrão nas universidades europeias. E no séc. XIX, a Química tornou-se na maior das ciências quer em mão de obra, quer em infra-estruturas. Se uma universidade oferecesse disciplinas ligadas à Química, tinha de fornecer laboratórios, algo que outras Ciências mais tarde seguiram: Nos planos para o Museu de História Natural de Oxford em 1850, onde existiam espaços para várias Ciências, o termo "laboratório" era usado exclusivamente para o laboratório de Química.

Portugal teve dois importantes laboratórios de Química ligados às Universidades - O Laboratorio Chimico da Universidade de Coimbra e o Laboratorio Chimico da Escola Polytechnica de Lisboa. O primeiro, o Laboratorio Chimico da Universidade de Coimbra, foi construído após a reforma do Marquês de Pombal no final do séc XVIII, baseado no modelo da Escola de Medicina de Viena, herdado do ensino clínico da Escola Leiden de Borehaave. Este laboratório era parte de um conjunto para ensino universitário de Ciências, incluindo um teatro anatómico, armazém de medicamentos, jardim botânico, observatório astronómico, gabinete de Física e Museu de Ciências Naturais. O modelo de laboratório era próximo dos modelos alquímicos, sendo o primeiro do género em Portugal.

O segundo laboratório é o Laboratorio Chimico da Escola Polytechnica de Lisboa (EPL, criado em 1837 seguindo a École Polytechnique de Paris), um dos melhores do género na Europa à data, nas palavras de von Hoffmann, fundador dos laboratórios universitário de Berlim e Bona. Nessa época, existiam dois tipos de laboratórios: de investigação e de ensino. Os do segundo tipo começaram no que era antes a cozinha do Colégio dos Nobres, mais tarde reconstruído depois do fogo de 1843 num projecto de 1852 por João Pedro Monteiro, compreendendo uma área total de 860 metros quadrados, incluindo um anfiteatro com uma ocupação máxima de 200 alunos. O espaço de laboratório estava dividio em duas partes: um grande laboratório (20x12x10m) para trabalho com 50 alunos, rodeado por uma mezzanine com espaço para 100 alunos, com uma sala de preparação; um laboratório, espaço de escritório e duas salas para arrumação. A partir de 1855, na retórica educativa, o trabalho prático era considerado obrigatório tal como os exames práticos, com os alunos no curso de Química prática a seguir um conjunto de preparações e análises contidos num manual entregue no início do ano lectivo.

Os laboratórios de Física seguiram-se aos de Química. O laboratório Cavendish em Cambridge, um dos mais importantes do séc. XIX, contrastava com anteriores espaços para Física experimental, quer em exterior, em salas normais com equipamentos específicos. As experiências de Newton com prismas era feitas na sua sala na Trinity College, Cambridge, que apenas exigia estores com um pequeno orifício. O estudo de trajectórias de balas de canhão, a experiência do barómetro sugerida por Pascal, o estudo de condutores de relâmpagos por Franklin, todas era realizadas no exterior pelas razões óbvias. Os "gabinetes" de Física e Química, um termo usado por vezes para referir um laboratório portátil a partir do séc. XVIII, era uma colecção de equipamentos, tais como reagentes, material de vidro e sopro. O gabinete de Física era originalmente uma sala com armários onde vários equipamentos eram expostos, sendo exemplo disso o espaço de trabalho do séc. XVIII do abade Nollet.

Estes gabinetes faziam parte de uma tradição dos chamados gabinetes de curiosidades, que surgiram a partir do séc. XVI, e que eram salas exibindo colecções de objectos de origem natural e cultural. Estes gabinetes eram geralmente propriedade de pessoas ricas e poderosas ou "cientistas", podendo ser considerados os percursores dos museus. Um exemplo é o gabinete de Ole Worms (séc. XVII). (imagem) Estes gabinetes não eram um espaço essencial para experimentação, embora não possam ser considerados separados dos espaços onde os equipamentos experimentais eram construídos, as oficinas, os locais para experiências piloto, que Robert Hooke usou antes de apresentações públicas para os membors da Royal Society. As demonstrações públicas de experiências de Física eram comuns em espaços construídos para o efeito, como por exemplo os Teatros fisicos italians. Estes anteriores conceitos precederam os laboratórios de Física, que emergiram mais tarde no séc. XIX com o desenvolvimento do estudo da electricidade.

A introdução das Ciências no currículo escolar data da reforma de 1836, focando-se num ensino mais prático. Nos Liceus, a laboratorização das Ciências na escola seguiu de uma certa forma o modelo dos Laboratorios Chimicos de Coimbra e Lisboa de ensino universitário, ao contrário do modelo anglosaxónico, que unificou desde muito cedo os vários espaços num único laboratório. Os regulamentos de 1909 para os edifícios escolares definiam espaços especializados para as ciências, não os qualificando no entanto como laboratórios, mas como gabinetes (Física, Química, História Natural, Geografia), para além de um museu e um anfiteatro, revelando de um certo modo a sofisticação dos laboratórios universitários face aos espaços escolares. As disciplinas científicas consideradas nesta reforma eram “Princípios de Física, Química e Mecânica aplicados às Artes e Ofícios” e “Princípios de História Natural dos três Reinos da Natureza aplicados às Artes e Ofícios”. Referências a espaços escolares para o ensino das Ciências são difíceis de encontrar, podendo encontrar-se no documento legislativo da reforma de 1926 indicações de laboratórios, sugerindo uma actualização do estatuto de gabinetes de Física e Química. Salas de aula para Geografia e Ciências Naturais são também referidas.

No plano de 1938, concluído apenas em 1952, são referidos já laboratórios de Física e de Química, Salas de Ciências Geográficas-Naturais e anfiteatros. Os laboratórios de Biologia e Geologia datam da reforma de 1989, com a introdução das respectivas disciplinas de técnicas laboratorais, a decorrer em laboratórios especializados e com um cariz mais prático, para além das suas versões mais teóricas (Ciências da Terra e da Vida, Ciências Físico-Químicas, Física, Química, Biologia e Geologia), a decorrer em salas de aula "normais". Com a reforma de 2003, assiste-se à extinção das disciplinas técnicas, e a combinação de momentos de teoria e de prática em disciplinas científicas, evidentes nos tempos lectivos atribuídos para cada um (90 min.x2 + 135 min. respectivamente), assim como nos espaços atribuídos para cada um (sala normal + laboratório).