Estúdios de aprendizagem de Ciências

O conceito de Estúdio como candidato relevante para repensar o laboratório escolar

Active Learning Classrooms (2012) from Andy Underwood-Bultmann on Vimeo.

Partindo da revisão dos Estúdios de Design e SCALE-UP no ensino superior e dos Ateliers Reggio Emilia na educação pré-escolar, apresenta-se de seguida um esboço de estúdio de aprendizagem de Ciências organizado nas seguintes categorias: 1) espaços e mobiliário; 2) tecnologia; 3) currículo; 4) atividades de ensino e aprendizagem; 5) avaliação; 6) cultura e desenvolvimento profissional e 7) ligações à comunidade.

Espaços e mobiliário

 

As áreas e configurações do espaço num estúdio suportam tanto trabalho de grandes grupos, pequenos grupos e individual (no caso dos estúdios de Física, por vezes acima de 100 alunos), como diversas atividades de ensino e aprendizagem, eliminando uma frente de sala fixa. Os tempos são mais longos do que o habitual, concentrados num único momento, p.e. de 4 horas semanais.

O mobiliário é adequado a um uso flexível, sendo geralmente movível e agrupável, facilitando a movimentação dos professores. Pontos de água e luz servindo as áreas laterais e/ou centrais servem também essa flexibilidade, com superfícies laváveis e distinção entre zonas “limpas” e zonas “sujas”.

Há acesso fácil a livros, ferramentas, materiais e equipamentos, com áreas de armazenamento adequadas. Áreas anexas aos espaços podem servir este propósito, bem como mobiliário no próprio Estúdio, como armários, paredes de ensino, prateleiras e outras soluções de arrumação.

Pin-ups, quadros de afixação, paredes e painéis de escrita servem para documentar atividades, criar espaços de apresentação, discussão e colaboração, criando também oportunidades para decoração e apropriação do espaço.

Tecnologia

 

Uma consola digital de controlo para professor, fixa ou móvel, pode facilitar a gestão dos equipamentos disponíveis, como portáteis ou computadores híbridos dos alunos, projeção a partir de qualquer equipamento sem fios, entre outros. Sistemas de votação de alunos ou controlados por aplicações em contextos BYOD (Bring Your Own Device) poderão também ser úteis.

Um computador híbrido para o professor, com uma caneta, permite escrita e desenho para além da utilização de aplicações de vários tipos, recursos educativos digitais e da web no geral. Facilita também a circulação do professor numa lógica de desk crits, permitindo-lhe tirar notas e fotografar o trabalho de alunos, tanto para documentação de prática como para iniciar discussões de grupo a partir de um caso concreto fornecido por um aluno ou grupo de alunos, p.e. projetando uma foto de um trabalho para que o grande grupo possa comentar. Permite também partilha da “frente de sala” com os alunos, pedindo-lhes por exemplo para demonstrar ou exibir algo ao grande grupo, recorrendo a projeção. O professor poderá também ter disponível um visualizador/câmara de documentos para mostrar objetos, montagens, materiais, quadros brancos portáteis dos alunos, cadernos ou documentos.

Um sistema áudio e vídeo para o professor, que pode ir desde um conjunto microfone/auscultador e webcam do computador híbrido a soluções mais complexas (como microfones sem fios, câmaras vídeo, mesas de mistura e colunas), poderá servir para chegar a grupos maiores de alunos, alunos ou convidados não fisicamente presentes ou para gravar algumas atividades. Projeção única ou múltipla, sem fios, também poderá existir, consoante a dimensão do estúdio ou as necessidades de comunicação.

No estúdio podem também existir portáteis dedicados ao trabalho de grupo, por grupo de 3 alunos. Com os desenvolvimentos recentes e as gamas de valores existentes para computadores híbridos, estes poderão permitir a escrita e desenho com caneta, fornecendo funcionalidades tanto de tablet como de portátil. Estes equipamentos podem ser arrumados, carregados e sincronizados em trolleys, tanto no final das aulas como durante uma atividade que assim o exija. Ferramentas para prototipagem e modelação de conceitos de design podem também estar acessíveis (na linha dos maker spaces, hacker spaces ou fab labs, ou na linha do Atelier ou Oficina).

Sistemas de gestão de aprendizagem, trabalho colaborativo e/ou outras plataformas podem apoiar a realização de mini-testes, modelos blended misturando ensino presencial e a distância, blocos de notas digitais, sistemas de gestão de informação escolar e de grupo, e-portefólios, etc.

Currículo

 

Alcançar objetivos de aprendizagem diversificados poderá envolver um balanço entre um currículo negociado e um currículo mais formal, desenvolvendo múltiplas competências para além das técnicas como as identificadas por De La Harpe e colegas (2009): 1) competências hard (criatividade, inovação, resolução de problemas, pensamento crítico); 2) competências soft (comunicação, colaboração, consciência social e ecológica); 3) conhecimentos; 4) uso de tecnologia; 5) abordagem à aprendizagem; 6) prática profissional e inovadora; 7) prática reflexiva; 8) colaboração interdisciplinar, considerando produto, processo e pessoa. A disciplina de Área de Projeto de 12.º ano, apesar de extinta, poderá ser uma referência importante, no caso de alunos que escolherem disciplinas científicas e que foram orientados por professores dessas mesmas disciplinas.

Atividades de ensino e aprendizagem

 

A aprendizagem baseada em projetos poderá desempenhar um papel importante na definição de atividades no Estúdio, partindo de resumos indefinidos ou de interesses dos alunos em temas específicos e problemas e situações reais.

O professor pode realizar desk crits, circulando entre alunos enquanto estes realizam uma determinada atividade, envolvendo-os em reflexão em ação, provocações para expandir o seu pensamento crítico, apoiando a reflexão colaborativa e aprendizagem entre pares quando alarga a discussão ao pequeno ou grande grupo.

A pedagogia baseada em investigação é enfatizada, como p.e. MBL, simulação e modelação, modelos físicos, dramatização, Resolução de Problemas do Mundo Real (Real World Problem Solving), instrução direta alternada com atividades, mini-testes com feedback imediato, instrução por pares, atividades tangíveis e ponderáveis, ou inquérito aberto.

A aprendizagem cooperativa é também uma das características das atividades no estúdio. Os alunos poderão ser organizados em grupos de 3, combinando alunos de diferentes níveis de proficiência (baixo, médio e alto). A inclusão de grupos pouco representados é também considerada na constituição de grupos, que podem apresentar rotatividade ao longo do ano. Pin-ups com painéis de afixação, quadros brancos portáteis (p.e. de tamanho A3) ou projeção a partir do computador de qualquer dos grupos suportam a apresentação dos resultados e reporte do estado das atividades dos alunos, para revisão pelo professor e pelos pares, suportando a discussão e o feedback a partir de exemplos concretos. Os projetos individuais e de grupo são apresentados em exposições coletivas e apresentações públicas.

As perguntas que guiam as atividades são “Porque estamos a fazer isto?" ou “Qual é o objetivo de aprendizagem desta atividade?”, geralmente abordadas no início e no fim de cada aula.

Avaliação

 

O peso dos exames/testes finais é reduzido, favorecendo o trabalho contínuo durante o período ou semestre, como a realização de mini-testes todas as semanas, fichas de avaliação, trabalho laboratorial e respetivos relatórios, registos no caderno diário, atividades tangíveis e ponderáveis, projeto, etc. O trabalho de casa tem um peso maior do que o habitual (p.e. 20 % a 25 %), considerando que os horários letivos semanais não são demasiado longos e permitem realizar atividades fora das aulas. As fichas de avaliação têm um peso mais baixo do que o habitual, (p.e. 10 % a 15 %) permitindo aos alunos recuperar se tiverem um mau resultado. A avaliação baseada em critérios é usada em substituição da avaliação baseada numa norma. A autoavaliação e a avaliação por pares no trabalho de grupo contam também para a nota final (p.e. 15 %).
A avaliação assume-se também como baseada na experiência e na interpretação, usando a documentação de forma a tornar a atividade do professor visível e sujeita a interpretação, diálogo, confrontação e compreensão.

Cultura e desenvolvimento profissional

 

Pares pedagógicos e assistentes de ensino são também alguns aspetos diferenciadores do Estúdio. Existe também o convite a peritos, outros professores e membros externos no final do ano, com as apresentações públicas estando sujeitas a escrutínio externo.

Para além de um desenvolvimento profissional mais formal, existe também formação em contexto profissional, com apoio contínuo de pedagogos e reuniões semanais e mensais para discutir práticas a apoiar a reflexão em ação, recorrendo à documentação de atividades de ensino e aprendizagem realizadas pelos professores, bem como modelos blended, combinando modelos presenciais e a distância para maior flexibilidade de horários e apoio na reflexão em contexto.

Ligações à comunidade

 

As atividades integram prática da vida real e uma metodologia de design thinking (IDEO, 2012) favorecendo relações com a comunidade escolar e não-escolar, profissional ou não, recorrendo ao trabalho de campo para interagir com essa mesma comunidade em torno de desafios de design partilhados, procurando soluções, realizando protótipos e testando a sua implementação.

A gestão partilhada pela comunidade, a vida comunitária e a presença constante nessa comunidade reforçam as ligações entre as atividades no Estúdio e a vida diária na comunidade nos seus diversos aspetos, profissionais, de lazer, familiares, políticos, de cidadania, etc.

Em jeito de conclusão

 

Recentemente (2017), acompanhando a evolução de alguns projetos europeus ligados às tecnologias educativas, como o Creative Classroom Lab (CCL, http://creative.eun.org/), Future Classroom Lab (FCL http://fcl.eun.org/) ou Innovative Technologies for Engaging Classrooms (ITEC, http://itec.eun.org), assiste-se a uma crescente mediatização junto das escolas de novos modelos de espaço para as salas de aula normais. Apesar das críticas possíveis à ênfase excessiva na tecnologia, na retórica “aprendizagem ativa” e na difícil escalabilidade destas propostas em termos materiais e financeiros para todas as salas de aula, estas iniciativas têm ganho algum interesse por parte das escolas, municípios, empresas, universidades e entidades governamentais, podendo constituir uma oportunidade para, a partir da mudança dos espaços escolares, repensar todo o modelo educativo em vigor.

O laboratório escolar tem grande inércia histórica na Educação em Ciências, assim como a retórica sobre integração da teoria e da prática. Repensar os espaços escolares para as Ciências assim como as atividades icónicas que neles ocorrem, poderá ser um ponto de partida para avançar a discussão. Tentou-se evidenciar as origens do modelo de espaço escolares vigente, problematizar as ideias na sua base e apresentar o conceito de Estúdio como um candidato relevante para repensar o laboratório escolar, que talvez como o chumbo no trabalho alquímico, também procurará aperfeiçoar-se.